Ontem o filho de uma colega de trabalho passou a manhã comigo em minha sala de aula. A mãe teve que levá-lo para escola com ela, porque não teve aula para ele e não tinha com quem deixá-lo.
Está com ele me vez relembrar um fato que aconteceu dois dias depois de receber o negativo da minha 1ª TEC (Transferência de Embriões Congelados) da minha 1ª FIV (Fertilização in Vitro).
Era segunda feira, eu ainda estava de luto pela perda dos meus bebezinhos, mas tive que voltar ao trabalho. Me vesti com o meu mais belo sorriso para retomar as minhas atividades com os pequenos com os quais não matinha contato a treze dias.
Estávamos sentados em uma roda no chão da sala cantando algumas cantigas e essa colega, que mencionei anteriormente, apareceu na "nossa" porta. Ela sorria de orelha a orelha e me perguntou discretamente: "E aí?" (se referindo ao resultado da minha TEC) já em clima de comemoração. Eu parei o que estava fazendo, fui ao seu encontro e quase sussurrando lhe disse: "Não, não aconteceu. Da mesma forma que eles vieram para mim eles se foram". Ela me abraçou bem forte e com os olhos banhados em lágrimas sem pronunciar uma única palavra retirou-se o mais depressa que pode.
Nunca vou esquecer aquela cena... Alguém com quem tenho pouco contado chorando a minha dor. Naquela manhã em especial foi a demonstração mais sincera de solidariedade ao meu luto.
O meu luto a fez reviver o seu próprio luto (vivenciado cinco anos antes). Após sete anos de tentativas fracassadas de ser mãe ela teve a possibilidade de iniciar um ciclo de FIV, mas teve o seu ciclo cancelado ainda na fase de estimulação ovariana (ovulou antes da data prevista para a punção folicular) e teve que amargar a dor do seu último ciclo de tentativas fracassada. Ela havia dado a sua cartada final. Usou todos os recursos que dispunha e não tinha como tentar uma outra vez.
Porém, no mês seguinte, enquanto ainda vivia o luto do filho que talvez pudesse ter vindo ao seus braços, caso o tratamento tivesse dado certo, milagrosamente ela concebeu uma criança de forma natural. O mesmo menino que ontem, já com seis anos de idade, esteve comigo pela manhã em minha sala de aula...


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